A necessidade profissionais intérpretes de LIBRAS na comunicação organizacional

DSC04448

As organizações têm incluído cada vez mais em seus quadros colaboradores surdos. Isto tem gerado uma demanda de profissionais preparadas para se comunicar por meio da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS.  A Profª Veridiane Pinto Ribeiro, especialista em Libras e Mestre Educação da Univali, defende a importância das empresas oportunizarem vagas de trabalho para este público e, ainda,  a necessidade de estímulo das famílias na busca pela especialização dos surdos.

RP na Rede: A inclusão de pessoas com algum tipo de necessidade especial no mercado de trabalho cresce cada vez mais. Na sua avaliação,  as organizações estão preparadas para recebê-las?

A legislação tem pressionado as empresas a empregar pessoas com deficiência, e realmente as pessoas surdas têm encontrado espaço no mercado de trabalho. As vagas, em sua maioria, são para funções modestas, com salários igualmente modestos, mas cabe à pessoa surda ter interesse, esforçar-se para profissionalizar-se e atingir um melhor patamar profissional.

O problema é que nosso sistema educacional não prepara nem ouvintes e muito menos pessoas surdas para esta visão progressista. Se as pessoas surdas não estiverem amparadas por famílias atuantes e comprometidas, que as oriente sobre os desafios impostos pelo sistema competitivo do mercado de trabalho, elas acabam se tornando pessoas sem grandes ambições, desacreditas de si, de suas potencialidades e aceitam muitas vezes, condições bastante modestas no mercado de trabalho sem lutar por melhores colocações.

Há casos de sucesso. Há pessoas surdas que conseguem formar-se em cursos superiores, concluir mestrado e até mesmo doutorado, prestam concurso público e acabam conquistando espaços, principalmente como professores de libras, em Universidades por todo o país, mas é uma minoria. Alguns, destacam-se em áreas que dispensam o uso do som como designers, diversas funções que fazem uso da tecnologia da informática, mas, lamentavelmente, são poucos. Ainda precisamos avançar muito no sentido de preparar as pessoas surdas para concorrer no mercado de trabalho com igualdade de condições em relação às pessoas ouvintes.

Isto vai além de difundir o conhecimento em língua de sinais para propiciar o acesso a comunicação. Envolve também métodos de ensino específicos para pessoas surdas, adequações visuais para favorecer a compreensão, a formação profissional, o ingresso e uma melhor colocação no mercado de trabalho.

O que impede o avanço da melhoria da qualidade de vida das pessoas surdas em relação a atuação profissional é a visão reduzida da nossa sociedade que continua rotulando-as como deficientes, quando, na verdade, a deficiência está no nosso sistema social e educacional que é incapaz de produzir sistemas adequados de ensino-aprendizagem, corroborando para o rótulo de deficientes, limitando as possibilidades destas pessoas comprovarem o quanto são eficientes.

RP na Rede: Qual a vantagem para uma empresa que tem alguém que se comunica através da LIBRAS?

Na atualidade, estamos presenciando inúmeros movimentos no sentido de se valorizar a diversidade, seja em ambientes de trabalho, educacionais, de lazer. Conviver com as diferenças tem sido a bandeira da sociedade que tentamos construir com base nos princípios da inclusão. Independente das diferenças convivendo em um ambiente de trabalho, todos são importantes para transformar a visão de nossa sociedade segregacionista em uma sociedade em que o normal é sermos todos diferentes. Assim como a língua de sinais, o braille, tecnologias assistivas de comunicação alternativa aumentativa, deveriam circular em nosso meio como diferenças comuns, sem chocar, nem chamar a atenção, nem provocar comentários ou surpreender quem está em volta.

Conviver com as diferenças de forma natural nos faz mais humanos, mais sensíveis a necessidade do outro, mais generosos, compreensíveis, tolerantes, colabora para que a sociedade se liberte de preconceitos e se constitua na igualdade e no respeito.

RP na Rede: A Univali oferece o curso de  LIBRAS. Como funciona?

 A disciplina de libras tem uma carga horária de 60 horas/aula, ministrada de forma semipresencial, sendo 10 aulas presenciais e 8 a distância. Desta forma, a ementa precisa ser “enxuta”. Para definirmos o que é significativo para os alunos, tentamos focar nos conhecimentos que possam contribuir para sua atuação profissional na área da educação. Assim sendo, além de conhecimentos básicos de libras (pequenos textos para uma comunicação inicial com foco no contexto escolar), também são trabalhadas a história da educação de surdos, filosofias educacionais, cultura e identidade surda.

Além da disciplina de libras nos cursos de Licenciatura e Fonoaudiologia, a Univali também oferece cursos básicos de libras no SAPS (Setor de Atendimento à Pessoa Surda) ligado ao curso de Fonoaudiologia.

Há quatro anos também oferece o curso de Tradução e Interpretação em Libras ligado ao NELLE. Este já é um curso profissionalizante com carga horária de 240 horas e habilita para atuação como profissionais tradutores-intérpretes.

RP na Rede: Qual é o perfil dos alunos que fazem o curso de LIBRAS?

Na Licenciatura e na Fonoaudiologia a disciplina é obrigatória. Nos cursos básicos podemos encontrar diferentes perfis: pessoas que têm curiosidade, outras que buscam um conhecimento básico para depois se aperfeiçoar, também familiares ou amigos de pessoas surdas, e a procura é consideravelmente grande.

Para o curso profissionalizante a procura é sempre muito grande e aumenta cada dia mais. Porém, o fato da língua de sinais estar ligada ao contexto das pessoas com deficiência, há uma forte influência da herança assistencialista que nosso país construiu em torno desta realidade. Muitas pessoas desconhecem os avanços em relação às profissões que surgiram e estão estabelecidas oficialmente, entendendo que a atuação na área da educação especial é um tipo de “assistência”, uma espécie de “favor” e têm uma visão reduzida a respeito da preparação de profissionais nesta área, o que provoca um certo estranhamento no momento de investir financeiramente para adquirir conhecimento. Algo do tipo: “farei um favor ajudando os surdos falando em libras e tenho de pagar para aprender?”. Porém, ao ingressarem no mercado de trabalho para atuação como tradutores-intérpretes, isto não ocorre de forma voluntária, todos recebem seus salários e podem fazer concurso público para efetivarem-se na profissão.

Mesmo assim, muitas e muitas pessoas procuram o NELLE com interesse no curso, mas a maioria questiona se o curso é gratuito. Visto que não é, as matrículas acabam sendo bem menores que o número de interessados.

RP na Rede: Qual o seu conselho para quem quer fazer o curso?

Qualquer pessoa pode aprender língua de sinais. Na verdade, existem propostas dentro da comunidade surda no sentido de fazer com que a libras seja uma língua aprendida desde a mais tenra idade, ensinada nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Isto é perfeitamente possível, o que falta é vontade política e compromisso social com a inclusão.

As pessoas surdas não precisam frequentar um curso de libras para aprender esta língua, pois esta é a sua língua-mãe, sua primeira língua, que nasce com elas fazendo com que a produzam de forma natural. Fazer uso de gestos é algo inato aos surdos. A partir do momento que passam a ter contato com outras pessoas surdas, começam a aprender a língua oficial: a libras, e dela não se separam mais.

Aprender libras é um exercício de cidadania e inclusão, pois amplia as possibilidades de acesso à comunicação para as pessoas surdas e é uma ótima oportunidade para ingressar no mercado de trabalho. As vagas para tradutores-intérpretes de libras só têm aumentado. Concursos públicos e processos seletivos para esta profissão têm sido lançados todos os anos em todas as esferas. Aprender libras é ouvir o silêncio das vozes manuais com um olhar sensível para o acesso aos sentidos.

Por  Daiane Severino acadêmica do 6° período do Curso de RP da Univali

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s