Entrevista do Jornal Diarinho com a Coordenadora do Curso sobre os 100 anos de RP no Brasil

“As profissões regulamentadas talvez tenham mais suporte, mas isso não é um diferencial de mercado. Eu acho que competência é o diferencial”

Emiliana da Silva Campos Souza                     22/02/2014 – 08:24

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A carreira de relações públicas foi uma das que mais cresceu nos últimos anos. Sobram vagas, os salários são bons, mas faltam profissionais. Itajaí tem o único curso de graduação na área em toda a Santa & Bela. Os profissionais de RP podem chegar a posições importantes nas organizações rapidamente, como é o caso da coordenadora do curso na Univali, Emiliana da Silva Campos Souza. Nesse bate papo com os repórteres Raquel Cruz e James Dadam, ela conta os desafios da profissão, as oportunidades para quem deseja ingressar na carreira e as áreas de atuação, como a organização de eventos. Ela fala também sobre a copa do Mundo e a imagem que o Brasil terá após o evento. Se vai ser um tiro no pé ou bom pro país, a gente vai descobrir daqui a alguns meses. Por enquanto, a leitura que a profe faz mostra os desafios do país na preparação de grandes eventos. Os cliques são de Elton Damasio.

DIARINHO – Este ano acontece o centenário brasileiro das Relações Públicas. Nesses 100 anos de história, como foi a evolução da profissão? Qual o papel do profissional de RP há 100 anos e agora?
Emiliana da Silva Campos Souza: O profissional de relações públicas foi reconhecido em 1977. Na verdade, ele teve ali a sua regulamentação pelo governo e começou a ter o seu conselho. Daí, o profissional já começou a trabalhar, já tinha uma área conquistada, mas com a regulamentação, ele se formatou como área e como profissional propriamente. Dali eles efetivaram, deram habilitação para quem já era do mercado há menos dois anos. Geralmente, quando uma profissão é regulamentada, ela tem isso, e aí as pessoas foram tendo os cursos de graduação e especializações na área para se qualificar. O mercado, no início, é mais difícil para as pessoas reconhecerem quem é o profissional nas aberturas das empresas. Atualmente, a gente tem conquistado um mercado muito maior, de um cinco anos para cá, principalmente com o boom da internet, das redes sociais, porque as empresas acabam muito expostas aos comentários e à comunicação em si. Então, a solicitação do profissional de relações públicas acabou sendo muito maior por isso, por a gente estar sempre cuidado da imagem da empresa, da imagem de qualquer instituição ou até o profissional ou o artista. Trabalhar esse relacionamento com os públicos e entender profundamente quem são essas pessoas, quem são esses públicos que se relacionam com essas organizações e a necessidade de saber monitorar essas informações que caem nas redes sociais, é aí onde entrou a habilidade do RP em conhecer, que é uma das nossas funções, esse relacionamento com os públicos das organizações, conhecer até que ponto é possível ir.

DIARINHO – Mas as atribuições do profissional no começo do século continuam as mesmas daquela época ou mudaram?
Emiliana: A gente sempre teve aquela atuação diplomática, sempre foi a questão do cerimonial, a organização de eventos, e as funções foram sendo estruturadas, com as diretrizes dos cursos, atualizadas com o mercado e sempre fazendo a parte da assessoria de comunicação. Então, sempre começou com a área de cerimonial e toda a atribuição da assessoria de comunicação, mas no decorrer do tempo, a gente foi atualizando e buscando outras áreas que sejam afins para ampliar esse leque e ver as necessidades do mercado.

DIARINHO – O primeiro departamento de RP foi criado em uma companhia de energia elétrica, em São Paulo, em um momento de crise, estiagem e baixo nível dos rios. Apesar disso, a população não culpou a empresa. O cenário hoje é muito parecido, seca e constantes apagões, mas o povo coloca a culpa na empresa de energia e no governo. O que mudou nesse período? Os RPs de hoje não são tão competentes quanto os de 100 anos atrás ou a população é que está mais informada?

Emiliana: Eu acredito que as duas coisas. Eu acho que os profissionais das instituições tentam se formar ao máximo, mais habilitados possíveis, e a conquista do mercado sempre depende do profissional, de ele buscar isso e levar essa informação e essa habilidade pro mercado. É ele vestir a camisa e dizer ‘eu sou RP’, eu faço esse trabalho e é assim que eu vou exercê-lo. E as empresas realmente estão muito mais informadas hoje. Esse boom da internet e com a quantidade de informações que a gente recebe, realmente, acaba tendo essas duas situações. É um peso e duas medidas, as empresas exigem e os profissionais também precisam estar mais habilitados para tal função, por isso acabam casando as duas situações.

DIARINHO – Há quem diga que o RP é o profissional que maquia a imagem de uma organização, procurando mostrar apenas o seu lado positivo. É isso mesmo o que faz um RP?
Emiliana: Uma das nossas funções é a transparência. Em qualquer situação, independentemente de ser positiva ou negativa, uma situação que você tem que demonstrar, tem que fazer alguma atividade de comunicação para melhorar a imagem daquela organização ou manter a imagem que ela já tem. É uma questão de transparência, principalmente em momentos de crise que a empresa pode estar passando no momento em que a mídia falar, tentando buscar informação que foi passada de uma forma errada. Então, ali ele vai tentar trabalhar sempre essa relação com a imprensa, mostrando para ela todos os lados positivos, mas de uma forma transparente. Mesmo que a empresa seja culpada por alguma coisa, ele tem que manter e dizer que sim, ela é, mas o que ela está fazendo para reverter isso, para amenizar aquele problema. A função do RP é exatamente essa, não é só ir lá e mostrar as belezas. A gente tem que trabalhar com todos os ângulos da problemática, não só a imagem positiva propriamente. Não é assim ‘vamos mostrar só o que é legal da empresa, só o que é bonito, só a qualidade do produto’. Se realmente acontecer alguma situação que mostre o outro lado que a empresa não gostaria, aí é que ele entra em ação, principalmente para mostrar a transparência, falar a verdade, mas também mostrando o que a empresa tem de melhor e o que ela está buscando para melhorar aquilo ali. É essa a habilidade que realmente o profissional tem que ter. Às vezes, no mercado, a gente tem o problema de não ter profissionais habilitados, mas é assim que a gente forma o aluno. O perfil dele é esse, tem que ter essa vivência estratégica.

DIARINHO: Mas será que as empresas estão preparadas para mostrar esse lado negativo delas?
Emiliana: A concorrência no mercado é muito grande hoje. Ela tenta o melhor viés para poder se sobressair nesse ponto. A gente sabe por causa do mercado de trabalho. Atualmente, a gente tem uma média de 450 alunos formados no curso. Faz 17 anos que nós temos o curso de Relações Públicas. Então, dessa média, posso até estar sendo um pouco otimista, mas 90% dos alunos estão atuando na área, talvez não na função de Relações Públicas. Então, hoje a empresa entende a necessidade de ter um profissional de comunicação, talvez não necessariamente habilitado em Relações Públicas, mas ela vê a necessidade de você trabalhar isso de uma forma que traga benefícios para ela, benefícios de vendas, de lucro. Hoje muitas empresas que fazem isso e que têm esse profissional estão muito além do processo, porque ninguém quer ficar para trás, todo mundo quer ter um destaque. E as empresas estão conseguindo visualizar isso, a necessidade de realmente ter um porta-voz, uma pessoa que está ali falando ‘faz isso, a comunicação assim, vamos divulgar assado, vamos trabalhar assim, internamente os funcionários bem satisfeitos com a empresa, mas de que forma? Bem informados. Eu acho que todo esse relacionamento com os públicos que o RP tem, e ele tem essa função, as empresas estão muito preocupadas. A empresa que não tem essa função já designada no organograma, acaba tendo um déficit um pouco maior, e as empresas que têm conseguem se destacar bem mais. Isso a gente vê nitidamente. Por exemplo, o Beto Carrero. A maioria dos profissionais que trabalham com eles na área da comunicação são Relações Públicas. Eles conseguiram visualizar em pequenas atividades que os nossos alunos faziam lá, estágios e até funções administrativas, que eles tinham essa área estratégica, de trabalhar essa parte interna e externa, essa visualização que a graduação dava e dessa visualização da comunicação como um todo e a integração das áreas também. Hoje a gente vê que o mercado realmente precisa, e aqueles que não estão buscando isso, com certeza não vão conseguir chegar. Daqui a cinco anos, 10 anos, talvez a empresa não exista mais. Até para monitorar todas essas informações que a gente está recebendo hoje. É jornal, redes sociais, tudo isso é um boom muito grande, a gente não consegue gerenciar todas essas informações. Até que ponto eu posso ir, qual é o melhor canal de venda, para visualização da empresa, o que eu tenho que fazer para a empresa realmente aparecer de uma forma natural sem ser uma divulgação direta. Tu tens que estar sempre buscando essas formas alternativas.

DIARINHO – Anos atrás, quando a Univali criou o curso de RP em Itajaí, a profissão estava muito associada ao trabalho de recepção de eventos e contato comercial. Continua assim ou já existe um entendimento maior sobre esse profissional?
Emiliana: A nomenclatura Relações Públicas acaba puxando muito esse ‘relacionamento com os públicos’. E as empresas viam muito esse relacionamento com o público cliente, com as vendas, o cara que vai estar lá na frente do processo levando as vendas e a parte comercial. Mudou sim. Eu já tive mais solicitações de vagas de gente pedindo a parte comercial e recepção do que atualmente, porque o próprio egresso hoje mudou esse mercado, as redes sociais mostram quem é o RP. Ele pode até fazer departamento comercial, não tem problema nenhum, pode atuar, mas não é só esta a função que ele desempenha. Hoje a gente tem várias manifestações, principalmente do profissional, de alunos, de pessoas que atuam na área, mostrando um outro lado do RP. Isso de um tempo para cá mudou muito a função. Hoje quem pede, pede exatamente aquilo que quer. O aluno que entra hoje na graduação, ele entra porque quer ser Relações Públicas, ele não entra mais porque não sabe o que quer. Ele sabe o que quer. Ele entra porque conhece a área e sabe em que ele vai atuar. Talvez ele tenha uma insegurança normal, como qualquer profissional que começa em uma profissão, começa a atuar em uma área diferente, mas ele sabe o que o RP faz. Solicita-se muito mais para organizar os eventos do que para a recepção dos eventos. Como o evento dá visibilidade, tem imagem e como isso é o trabalho do RP, ele dá essa visibilidade para a empresa de uma forma positiva, então o RP é muito designado para essa área de eventos, eventos corporativos. A gente tem essa visão estratégica do que o evento pode fazer, não só como organizar o evento, início, meio e fim, mas o que ele pode trazer a pequeno, médio e longo prazo. A parte estratégica do evento mesmo. Por isso que a solicitação tem a demanda um pouco maior nisso.

DIARINHO – Há, também, um conflito histórico entre o uso do nome RP para profissionais não formados, como aquela pessoa simpática na entrada da boate que se apresenta como RP. Mas a profissão tem um conselho que pode multar quem se autointitula RP. Quais as vantagens e desvantagens de se ter um conselho?
Emiliana: As profissões regulamentadas talvez tenham mais suporte, mas isso não é um diferencial de mercado. Eu acho que competência é o diferencial, mas como nós somos regulamentados, só quem é formando em Relações Públicas, na graduação, pode atuar na área e ter a carteirinha e estar habilitado para tal função. Nós temos um conselho que presta esse serviço de fiscalizar o mercado e não deixar que as pessoas atuem na nossa área sem estar devidamente habilitadas. O que acontece, também, é que hoje, além de o cara levar a função do Relações Públicas, que só pode se for graduado, ele também não pode desempenhar a função designada a nós, como assessoria de comunicação, como comunicação institucional, comunicação interna. Existem algumas áreas que são específicas. A gente notifica a empresa, por isso o profissional tem que mudar a função ou ser habilitado. Hoje já tem mudado mais, posso dizer um pouco menos de dois anos para cá, o nosso conselho está atuando muito nisso, está fiscalizando muito próximo desses profissionais, está exigindo do profissional formado que ele seja do conselho. As próprias empresas, agências que fazem o trabalho de Relações Públicas têm que ser afiliadas ao conselho.

DIARINHO – Segundo dados do instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a profissão de RP foi a terceira em aumento no número de vagas entre 2009 e 2012. A abrangência da carreira seria um dos fatores que impulsionam o aumento de vagas. Em que áreas o profissional pode atuar?
Emiliana: Nós somos uma profissão silenciosa, mas ela é muito requisitada. O mercado está aquecido porque, primeiro, nós somos o único curso de Santa Catarina. Nós formamos alunos, então o mercado está aberto para a gente. Há muita vaga e pouca demanda de aluno. Existe muita gente vindo para cá atuar na área porque não há pessoas formadas o suficiente para abastecer o mercado. Esse dado é real, realmente cresceu muito, principalmente por causa da vulnerabilidade das empresas nas redes sociais, dessa preocupação com a imagem da empresa com os públicos que se relaciona. Vinda de multinacionais, muitas empresas se instalando aqui e que têm a conscientização da importância do profissional de Relações Públicas. Hoje ele trabalha com o marketing, a gente tem um viés muito grande na área de marketing, na área de organização de eventos e cerimonial e protocolo. Existe uma solicitação, agências que prestam serviços na área de comunicação terceirizada, trabalham toda a área de comunicação integradas à publicidade, no jornalismo. A assessoria de comunicação que, vamos dizer, não é parecida, mas se confunde muito com a assessoria de imprensa. São essas vagas, seria a parte de monitoramento de redes sociais, organização de eventos, cerimonial e protocolo, assessoria de comunicação, que aí vem principalmente das agências prestadoras de serviço para essas empresas, que elas não têm o setor, mas têm uma agência que presta o serviço para elas. 

DIARINHO – O salário dos RPs é um dos mais altos em relação aos colegas de profissão, como jornalistas e publicitários. Mesmo assim, não se vê um crescimento na procura e na oferta de cursos de graduação. Aqui, no estado, apenas a Univali oferece o curso. Não é uma contradição esse crescimento de vagas e a baixa procura?
Emiliana: Eu já tive problemas de ter vagas e não ter gente para indicar. Eles vêm direto no curso, porque a gente tem essa proximidade para indicar. Eu já tive muitas vagas que eles pediam, mas não havia como atender, porque os alunos já estavam praticamente todos no mercado. Pelo menos os que a gente poderia indicar. Vamos dizer que hoje não são todos os profissionais que a gente pode indicar. Nós ainda carregamos um fardo muito grande, que é saber quem é o RP. A gente ainda tem esse problema, as pessoas não sabem o que a gente faz. Quando elas conhecem, elas se apaixonam, quem realmente tem o perfil para a área. O fato de sermos o único curso de Santa Catarina não é bom, porque somos só nós que trabalhamos a divulgação da própria área aqui. A gente não tem um boom de pessoas que nos auxilie nesse processo de mostrar quem é o RP. Eu acho que se outras universidades oferecessem o curso, talvez elas reforçariam com atividades acadêmicas, com eventos, com outras situações. A gente não consegue fortalecer sozinha a área, a gente consegue mais a região do Vale, que é o mais próximo da gente. Mas comparando com graduações que há, por exemplo, no Rio Grande do Sul, o número de vagas nossas é o maior que tem. Nós temos hoje uma média de 40 a 45 alunos que entram no curso anualmente. Outras universidades que têm um conceito muito maior e que a proliferação da divulgação do curso ou da profissão é maior, como no Rio Grande do Sul, eles têm 15 anualmente. A gente tem uma demanda que é o que o curso precisa e que o mercado disponibiliza. A gente tem aberto muita oportunidade trabalhando divulgações do curso de uma forma diferenciada, mostrando a atuação, o que a gente faz. Faz oficina sobre uma atividade nossa e mostra na prática o que é. Aí a gente está conseguindo conquistar mais o mercado, mas o fato de sermos ser o único curso nos prejudica um pouco, porque o mercado é amplo, muita gente vem de fora, muitas multinacionais vêm de fora, de outras regiões ou mesmo de outros países, e sabem da função. A função é bem colocada em outros lugares como São Paulo, nas grandes metrópoles, mas aqui, na nossa região, não. Na nossa região, eu estou próxima de uma metrópole que é Florianópolis, mas não tenho curso lá, eu não tenho uma proliferação do curso. Então, eu não tenho onde projetar mais. Eu, sendo o único curso na região do Vale, não consigo fazer uma projeção tão grande. Mas é contraditório, eu concordo. Realmente a gente não consegue abraçar tudo. Vem gente de fora também. Há empresas que vêm e querem o profissional, sabem da importância, mas não existe a demanda, porque a gente não tem formação.

DIARINHO – Os profissionais de RP tendem a alcançar posições de destaque nas organizações mais rapidamente do que os colegas de outras áreas da comunicação. Seria a visão mais abrangente de ver a comunicação em diferentes aspectos o diferencial da profissão?
Emiliana: No nosso leque de disciplinas, que a gente monta a matriz curricular, e a gente tem que estar sempre mudando, ele abre bastante. O fato do conhecimento que ele tem e do estudo dos públicos, que é o mapeamento dos públicos que nós temos, que é uma das nossas funções, a gente consegue ter uma visibilidade. Por exemplo, naquele determinado público precisa trabalhar mais a imprensa, neste aqui eu preciso mais da parte de publicidade e propaganda. Ele, na habilidade dele, no próprio perfil do profissional e nas disciplinas que são contempladas no curso, a gente consegue fazer com que o profissional tenha uma visão maior, estratégica. Nós somos estrategistas na área de comunicação. A gente sabe da importância de trabalhar o relacionamento com a imprensa, da importância de trabalhar o relacionamento com o governo, com os familiares dos funcionários, porque a gente sabe que tudo isso envolve a imagem daquela organização, daquela entidade, daquela instituição. A gama de conhecimento que ele tem, o próprio perfil do profissional de RP por trabalhar com pessoas e conhecer os públicos, ele consegue ter essa visibilidade maior do que os outros profissionais. Não que seja limitado, mas se tu fores ver o perfil do jornalista, ele é bem específico. Ele é aquilo ali. Eles têm aberto um pouco mais pra área, e aí depende muito do profissional, porque existem profissionais atuando na nossa área que são jornalistas. Talvez pela falta de profissionais na área, porque a gente não consegue conquistar tudo e alguém vai ter que abraçar isso. O publicitário é muito externo, ele trabalha a questão visual, ele não trabalha tanto aquela coisa de conhecer o público, o que o público tá esperando da empresa. Ele não tem essa percepção que a gente tem. O publicitário é muito do visual. ‘Ah, eu vou fazer uma campanha assim, a gente bota uma pessoa assim’, e uma coisa que o RP usa muito é a pesquisa. Ele sempre procurar fazer um pesquisa de opinião pública, pra poder conhecer aquele público, pra aí sim dizer ‘a gente vai fazer esse tipo de estratégia, esse tipo de ação’. Consegue reunir pra poder montar a estratégia certa para determinada situação. Ele tem essa habilidade da pesquisa e do conhecimento dos públicos. Talvez seja por isso que ele tenha esse leque maior.

DIARINHO – Há uma discussão antiga sobre o fato de os RPs exercerem funções de jornalistas dentro das empresas, como escrever comunicados à imprensa. Como separar essas funções dentro de uma organização?
Emiliana: Isso vai muito do profissional que está atuando. A gente tem hoje, na graduação, um aluno que enxerga a integração das áreas e não busca áreas que não são deles. Pra mim, é integração; eu não vou pegar a área de ninguém. A questão do release é uma coisa de muitos anos. Ele está na nossa habilitação. A gente pode escrever releases, está no nosso conselho, diz que a gente pode escrever. Lógico que você ter um jornalista seria ideal pra fazer isso, mas nem sempre o mercado disponibiliza. Não que a gente queira pegar a área. Depende muito do profissional que está atuando dizer, ‘essa área não é minha. Eu vou buscar alguém que seja da área’. A gente sabe que a realidade do mercado não é essa, mas tem mudado. Esta semana, uma professora de jornalismo recebeu uma solicitação de uma aluna de RP, de uma vaga de jornalismo, de um setor que ela construiu dentro da empresa. Ela trabalhou na nossa agência integrada, ela sabe da importância da integração, e abriu uma vaga de publicidade e uma de jornalista. Depende muito de quem está atuando, do posicionamento do profissional, da qualidade de propor um profissional, da ética, de saber que aquela área não é sua. O mercado, às vezes, é injusto. Às vezes não tem recurso para contratar jornalista, obrigatoriamente o RP precisa fazer. A gente se depara com essa situação, mas a tendência é mudar. Eu acredito que a maioria vai começar a buscar profissionais habilitados na área pra ter qualidade de serviço. Porque não adianta fazer uma coisa que eu não conheço só por fazer. Eu preciso desses meus colegas pra coisa engrenar. Cada um na sua área, cada macaco no seu galho.

DIARINHO – Pra quem achou interessante o que faz um RP e pensa em entrar na área, que características pessoais favorecem o profissional?
Emiliana: É muito relativo isso. Hoje em dia, a pessoa já nasce com algumas características, que já vêm no sangue. Mas já tive alunos que não tinham perfil e foram criando durante o processo da academia. Eu acredito que o profissional que entra hoje tem que gostar de ler, tem que saber se informar e pesar a qualidade dessa informação, porque não é só se informar. Hoje em dia, a gente tem que selecionar o que vai ler de tudo o que a gente recebe. Dinâmico, acredito que tem que ser nesta função versátil, dinâmico. A pessoa precisa ser capaz de fazer coisas diferentes todos os dias. Porque a nossa profissão é cada dia diferente. Não tem rotina. Ele tem que estar preparado pra isso. Todo dia a gente recebe uma informação diferente, tem que tratar uma informação diferente. Existem algumas pessoas que não possuem esse perfil. O profissional tem que estar sempre se reciclando, sempre buscando novos caminhos e gostar de estudar, tirar boas notas. Curiosidade é uma das questões muito importantes, não só na nossa área, mas em todas as áreas de comunicação. Ser curioso, estar buscando a fonte das informações, o que ele pode estar fazendo num processo diferenciado pra poder ter esse diferencial de mercado. 

DIARINHO – Este ano tem copa do Mundo no Brasil e há muitas críticas ao evento. Pode ser uma oportunidade para os RPs ou é um caso perdido? A opinião pública não vai mudar?
Emiliana: Nós temos profissionais dentro das organizações da copa. É complicado, é um processo muito maior do que possa um profissional mudar esse contexto. Não é assim tão fácil. Existem outras questões políticas que envolvem a copa do Mundo no Brasil, não é só a comunicação que o estádio não ficou pronto. A gente tem muito mais problemas do que é possível imaginar. Infelizmente, o Brasil não foi preparado para receber a copa. As pessoas não foram preparadas para receber a copa. Pegaram o evento sem preparar a população pra isso. Eu não acredito que nós vamos afetar diretamente, nem positivo, nem negativo. Acho que vai se manter como a gente tá. A copa é um evento turístico, ela envolve muito a área do turismo, envolve a imagem do Brasil, mas diretamente eu acredito que vai estar dentro das entidades envolvidas, mas não diretamente com o profissional de RP, mas com outras áreas junto, tentando trabalhar e modificar esta imagem que a copa tá trazendo hoje. Mas eu não acredito que respingue diretamente na gente, porque vamos atuar com os outros profissionais da área. Não só nós sozinhos vamos estar trabalhando esta questão da imagem. As empresas vão achar uma oportunidade. Os profissionais de RP talvez sejam uma resposta mais adequada. Os profissionais de relações públicas que veem a copa como uma oportunidade vão trabalhar as empresas, as entidades, quem estiver envolvido, de uma forma positiva. [Pode ser um bom momento para o profissional…] Para o profissional ou para a empresa em que ele está trabalhando, como uma forma de ele sugerir estratégias que a copa possa beneficiar aquela empresa. Eu acho que isso ele vê, ele consegue. Como profissional de RP, eu usaria a copa como oportunidade para a minha empresa. Mas todos no Brasil vão ser contemplados com isso, porque vai envolver turismo, várias coisas serão envolvidas. Questão de infraestrutura é outro ponto importante. Mas a questão negativa não acredito que vá afetar, a não ser as que estão envolvidas diretamente, como é o caso de Curitiba, de quem realmente tá envolvido com estádio e tudo mais. Isso sim vai ter que tomar uma posição, porque vai ficar muito feio pra cidade e principalmente pro nosso país, de não ter dado conta. Porque na história da copa, você não escuta isso de não ter dado conta. Escuta de não ter ficado pronto no prazo, mas de não ter dado conta, a gente nunca ouviu. Isso que está sendo falado é verdadeiro. O Brasil realmente não está dando conta. Mas quem for estrategista, vai poder usar a copa como uma boa oportunidade para o profissional de RP. [E no caso do governo, existe uma série de reclamações, de dinheiro jogado fora e o país sem hospitais, sem escolas. Pra imagem do governo, foi um tiro no pé trazer a copa do mundo?] Acho que o governo não se preparou pra receber a copa, não foi oportuno. Apesar de que eu vejo a copa como uma oportunidade para o Brasil, como foi a Volvo pra Itajaí, só que a Volvo foi preparada, a comunidade foi preparada pra receber o evento. Existiram críticas, mas todos foram preparados. O Brasil não viu o evento como uma oportunidade, porque nós estamos passando por uma fase difícil. A gente tem muitos problemas, e um evento desse tamanho gera um custo muito alto. E há um investimento muito alto também. Por mais que as empresas privadas estejam injetando dinheiro, o governo acaba tendo que injetar mais. Isso pra quem não vê como oportunidade, mas botar dinheiro no lixo, jogar fora. Eu tenho uma visão um pouco diferente, eu acho que os eventos trazem benefícios pro país que recebe. Dá uma visibilidade, mas das coisas que tenho visto, já estou ficando um pouco insegura com a copa aqui. Vai ser muito bom pro Brasil, só que, ao mesmo tempo, se a gente tiver problemas durante a copa, talvez seja um tiro no pé, realmente, porque a população tem força. Se houver manifestações, se a gente tiver problemas neste sentido, a imagem do Brasil com a copa do Mundo vai ser muito ruim. Talvez o que a gente pensaria acerca de um evento desse porte, que a gente sabe que os eventos trazem benefícios externos, talvez este não vai trazer, talvez vai trazer uma parte negativa junto com a parte positiva, mas acho que muito mais negativa, porque a repercussão negativa é maior, não tem outro jeito. Acho que vai ser um tiro no pé. Eles estavam até pensando em retroceder, mas agora não há mais como fazer isso, porque já foram vendidos os ingressos. Agora eles vão ter que se preparar para ver o que vem pela frente. Mas as estruturas vão ser boas, vão trazer coisas boas pro Brasil, mas às vezes a população não tem essa visão. [O profissional de RP tá preparado para atuar em eventos esportivos?] A base que a gente dá para o profissional de relações públicas em eventos é um fundamento pra ele poder usar pra todos os tipos de eventos. Ele vai estar preparado pra qualquer tipo de evento. Agora, vai da habilidade dele de querer eventos esportivos ou outras áreas. Vai depender o que o mercado vai levar, ou o que ele pretende do mercado. Os eventos esportivos têm as suas características próprias, como todos os outros são diferentes um dos outros. A única coisa diferente é que os esportivos, às vezes, são um pouco maiores, mas não é um só organizador; existe uma equipe gigante. E depois, quem organiza os eventos da copa não é o Brasil, não somos nós. É a Fifa. Eles trabalham toda a organização do evento. A única coisa que o Brasil oferece é a infraestrutura. Ingresso, estrutura de vendas, tudo isso quem vai fazer é a Fifa. A gente não se envolve em nenhuma vírgula. A gente não opina nisso, a gente não faz nada. A gente só dá a infraestrutura, da cidade e dos estádios.

RAIO X                                                           Foto : Diarinho Online

Nome: Emiliana da Silva Campos Souza
Naturalidade: Itajaí
Idade: 35
Estado civil: casada
Filhos: um
Formação: relações públicas, pós-graduada em Turismo e mestra em Turismo
Trajetória profissional: começou trabalhando como relações públicas na indústria de móveis. Mais tarde, começou a desenvolver paralelamente ao trabalho algumas atividades de extensão na Univali. Foi relações públicas da grife da Univali, o Portal Univali. Sempre envolvida com eventos, virou professora na universidade e atualmente coordena o curso de graduação em Relações Públicas.

Na história da copa, você não escuta isso de não ter dado conta. Escuta de não ter ficado pronto no prazo, mas de não ter dado conta, a gente nunca ouviu. Isso que está sendo falado é verdadeiro. O Brasil realmente não está dando conta.

Eu vejo a copa como uma oportunidade para o Brasil, como foi a Volvo pra Itajaí, só que a Volvo foi preparada, a comunidade foi preparada pra receber o
evento.

Há muita vaga, mas pouca demanda de aluno. Existe muita gente vindo para cá atuar na área, porque não há pessoas formadas o suficiente para abastecer o mercado.

FONTE:  Diarinho Online

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