Comunicadores do futuro e a comunicação do passado

Os jovens profissionais conhecidos como “Millenials” – indivíduos nascidos entre 1979 e 1994 – já se constituem no grupo mais difícil de ser gerenciado nas organizações. Segundo estudo realizado em 2009 pelo consultor em desenvolvimento humano e professor da FGV, Marcelo Pinheiro, os Millenials são coerentes com a pressão contemporânea por rapidez que permeia a sociedade e as organizações: querem galgar posições hierárquicas rapidamente, ainda que possam não estar preparados para tal; 66% deles acreditam que o tempo ideal de permanência em uma organização seja entre 2 e 5 anos, 12% apontaram entre 1 ano e menos, e apenas 12% manifestaram o interesse em fazer carreira em uma única empresa.

Quando se observa a maneira como esse público se comunica – e agora esta é uma observação pessoal – , o quadro fica um pouco mais claro. Já nascidos na era do computador pessoal, seu mundo de relacionamentos é construído e, não raras vezes, sustentado quase que 100% via Internet, onde a palavra-chave é popularidade. No Twitter, por exemplo, fenômeno que, no Brasil, já começa a ser comparado ao Orkut, o sucesso é medido pelo número de amigos, que podem ser “conquistados” quando o usuário cadastra o seu perfil em sites que automatizam a entrada de novos seguidores. Assim, um jovem com uma função, digamos, humilde em uma organização, pode ter facilmente mais de 20 mil seguidores no Twitter, o que lhe confere um alto grau de importância no mundo das redes sociais. Só que no Twitter, o que importa é falar e não ouvir, regra que parece ser levada a sério pela maioria, o que torna a comunicação, muitas vezes, impraticável.

Sócio-diretor da Salgado & Serapicos Desenvolvimento Humano e Comunicação Estratégica. Consultor na área de transformação organizacional, seu foco é a facilitação de processos de comunicação face-a-face. Fábio é graduado em Jornalismo pela PUC em SP, e pós-graduado em Comunicação Empresarial pela ESPM. Também escreve sobre relações no blog http://www.discutindoarelacao.com.

Por outro lado, o diálogo, conceituado por David Bohm como um fluir livre e contínuo de idéias e opiniões, só se realiza verdadeiramente na presença de seus interlocutores e de seus sentidos – algo que já foi exaustivamente experimentado pela humanidade na era primitiva, com as redes de conversações que, segundo alguns pensadores, é o que nos distingue de outros animais, e continua sendo experimentada por todos nós, em nossos primeiros anos de vida, quando aprendemos a dialogar empregando todos os nossos sentidos. Mesmo que seja pouco praticado atualmente, o diálogo é parte de nosso DNA e, como uma habilidade esquecida, precisa ser acordado para que possa novamente ajudar a nos relacionarmos uns com os outros.

Em outras palavras, quando nos debruçamos sobre planos de comunicação segmentados para públicos como os Millenials – e este tem sido um desafio comum a muitos de nós -, ao invés de procurar reproduzir dentro da organização as ferramentas que fazem parte de seu cotidiano externo e que contribuem para o processo de alienação do diálogo, deveríamos voltar aos “basics”. Se o público mais jovem não tem muitas oportunidades de exercitar a comunicação face-a-face em seu cotidiano, faltará a ele habilidades na gestão de conflitos essenciais inerentes ao efetivo cumprimento das funções de liderança. Ele precisa, portanto, ser lembrado dessas habilidades esquecidas entre posts, tweets, torpedos e e-mails.

Podemos, no entanto, continuar insistindo em perseguir a idéia fixa de dar a esse público aquilo que ele já tem de sobra, criando blogs ou microblogs corporativos, toscos sucedâneos dos que ele utiliza no “mundo lá fora”. Podemos, inclusive, proibir sua utilização dentro das fronteiras da empresa, mesmo que já nem mais consigamos definir essas fronteiras, acreditando que, com isso, nos protegemos contra eventuais ataques de hackers e controlamos melhor o tempo das pessoas, ajudando-as a focá-las no que interessa, ou seja, nos interesses da organização.

Podemos, por outro lado, dar o que esse público – e, obviamente, não só a esse público –  o que de fato ele precisa, mesmo que a promoção de sessões de diálogo não seja lá algo tão glamoroso quanto uma campanha de endomarketing ou uma revista. Oportunizar o acesso a ferramentas e práticas de comunicação face-a-face dá mais trabalho do que editar publicações ou organizar eventos. Aliás, mesmo que em eventos a convivência com o imprevisível seja uma máxima, diálogos acontecem entre pessoas, e não consigo lembrar-me neste momento de nada que possa ser considerado tão imprevisível do que pessoas. No entanto, é preciso que o próprio profissional de comunicação se prepare, reconhecendo que ele também é alguém que precisa de ajuda para recuperar o prazer pelo diálogo aberto e suas habilidades nas conversações face-a-face, inspirando-se nas sábias palavras do titio Einstein: “Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou”.

Fonte:http://www.aberje.com.br/acervo_colunas_ver.asp?ID_COLUNA=165&ID_COLUNISTA=52

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