Relações Públicas: conceitos e preconceitos

A falta de precisão da mídia ao manipular conceitos importantes tem se
tornado cada vez mais freqüente e , com certeza, deriva de dois motivos
básicos: desconhecimento dos que deles lançam mão ou absoluta má fé.Na verdade, seria lícito esperar que comunicadores, em particular
jornalistas (que são infelizmente grandes infratores conceituais), estejam
atualizados, privilegiem a qualidade da informação que veiculam e não
contemplem conceitos como expressões vazias, sem conteúdo. Mas é isso que
acontece.

Muitos profissionais de imprensa e veículos têm conseguido jogar na cesta do
lixo conceitos de indiscutível relevância como responsabilidade social,
cidadania, sustentabilidade, porque estão reféns ou de sua própria
ignorância ou de releases e entrevistas oriundas de fontes empresariais
oportunistas. Desta forma, acreditam e fazem circular informações sobre a
responsabilidade social da indústria tabagista (quem mata milhões em todo o
mundo não merece esta boa vontade jamais), exaltam o apoio das casas de
bingos ao esporte brasileiro (vamos acabar com esta ilegalidade logo?) e
imaginam que a indústria agroquímica e de mineração possam ser sustentáveis
(agrotóxico é veneno e mata mesmo e queremos mais respeito com os
indígenas). Ao mesmo tempo, fecham com as agências de propaganda e
empresários da comunicação que defendem a liberdade de expressão para a
indústria de bebidas, de armas ou para a indústria de alimentos que seduz e
torna nossas crianças obesas, quando estão mirando apenas os seus lucros.
Não têm qualquer perspectiva crítica em relação às montadoras (um recall por
semana) e à indústria da saúde, e continuam proclamando aos quatro ventos os
milagres de seus produtos, muitos deles fatais para grupos de risco. São até
capazes de chamar plantação de eucaliptos de floresta porque sua visão de
biodiversidade é mais estreita do buraco de agulha.

 

 

 

Incomoda da mesma forma a visão preconceituosa com que, repetidamente, a
mídia tem se referido à atividade de Relações Públicas, considerada muitas
vezes como vilã da sociedade, considerando comportamentos e posturas
individuais como expressão de toda uma categoria. Evidentemente, existem
desvios no exercício da profissão, mas eles são comuns (e como) em outras
atividades também. Militares que entregam jovens para milícias rivais,
submetendo-as à tortura e à morte; governantes e políticos corruptos, embora
eleitos com milhões de votos; empresários que exploram o trabalho escravo e
publicitários que fazem o jogo dos grandes interesses comerciais existem aos
montes por esse Brasilzão afora. Como são comuns os jornalistas que vivem
atrás de um jabá e veículos que estabelecem relações promíscuas com o poder
político e econômico.

 

A atividade de Relações Públicas é essencial para uma sociedade democrática
porque as organizações dependem, cada vez mais, de profissionais e projetos
que estabeleçam uma relação saudável e harmônica com os seus públicos de
interesse. Uma sociedade moderna, justa, democrática não pode abrir deste
diálogo permanente promovido por verdadeiros Relações Públicas; pelo
contrário, precisa dispor de ações, planos, estratégias e políticas para a
inserção das organizações na sociedade, e a atividade de Relações Públicas,
quando autêntica (a ilegítima não merece essa denominação) trabalha sempre e
de maneira competente neste sentido.

 

 


É triste perceber nos anúncios classificados dos jornais, nas falas de
empresários mal informados, nas telenovelas e sobretudo nos comentários
preconceituosos dos jornalistas uma perspectiva equivocada do trabalho dos
Relações Públicas. Há quem os confunda com meros organizadores de festinhas
e não percebe a importância dos eventos corporativos para a consolidação
das marcas; há quem os associe a posturas não éticas ou de submissão a
chefias ou organizações (esta mentalidade capacho existe em todo o canto e
tem a ver com fraquezas individuais e não com o “ethos” de determinada
categoria) e não percebe o trabalho fundamental que realizam junto às
comunidades e a populações menos favorecidas.


Não há dúvida de que, em alguns casos, aqueles que se denominam Relações
Públicas (e agridem a atividade)_podem estar contribuindo para esta visão
distorcida, ao encamparem ações ou projetos que penalizam a sociedade ou
afrontam a ética e a transparência. Há, todos sabemos disso, agências (que
se dizem de RP) criando blogs e perfis no Orkut para enganar jornalistas e a
sociedade, tentando demonizar movimentos sociais, pregando o “bom mocismo”
dos fabricantes do tabaco e legitimando predadores ambientais contumazes.
Há empresas (agências/assessorias) e profissionais a serviço de interesses
inconfessáveis que praticam a atividade suja de “limpeza de imagem”,
buscando salvar a pele de organizações sem escrúpulos. Mas, convenhamos,
isso não é Relações Públicas, nunca foi e nunca será.


Não se pode confundir ações e posturas patológicas em comunicação com a
atividade de Relações Públicas, que se apóia em valores defendidos pela
sociedade e que encontra respaldo numa formação universitária de excelente
nível em muitas universidades brasileiras (há cursos ruins, mas eles
proliferam em todas as áreas , sobretudo depois da explosão irresponsável
do ensino mercantilista em nosso país).


Certamente, o preconceito de veículos, de jornalistas, da mídia em geral com
os profissionais e a própria atividade de Relações Públicas tem a ver também
com o ranço corporativista que ainda vigora no campo da comunicação (briga
de foice, sem sentido, por um espaço que gradativamente vai sendo ocupado
por profissionais de outras áreas) e que apenas confirma a tese de que a
comunicação integrada não passa de uma imensa hipocrisia. Não se pode
integrar o que está sendo desconstruído a todo momento por disputas
corporativistas.

Está na hora de desarmar os espíritos, qualificar os conceitos, repudiar os
preconceitos e, em especial, de assumir uma visão mais comprometida com a
comunicação cidadã. Nela, não há espaços para interesses mesquinhos,
manipulações egoístas ou idiossincrasias profissionais.

 

 


Os jornalistas e Relações Públicas precisam definitivamente “juntar os
trapos”. A comunicação verdadeiramente estratégica, integrada, passa
obrigatoriamente por este casamento promissor. Enquanto persistir este
divórcio, eivado de preconceitos e incompreensões, pouco avançaremos. Os
espaços profissionais em comunicação serão maiores e mais qualificados, se
caminharmos juntos. Como jornalista, um grande abraço aos amigos Relações
Públicas. Nossas eternas homenagens a Vera Giangrande, que sempre defendeu
esta união profícua e que se entristecia (e se indignava) com a nossa falta
de solidariedade.

 

Wilson Bueno

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